Lápis, papel e equidade de gêneros

O que você faria para defender seus direitos? A menina paquistanesa Malala colocou sua vida em risco porque nunca se calou.

Mesmo vivendo em uma região do Paquistão onde a repressão do Talibã impedia meninas de irem à escola, ela contou com o apoio da família e batalhou desde a infância para tentar reverter esse cenário. Em 2012, seus feitos acabaram por torná-la vítima de uma dura represália: levou um tiro no rosto e ficou hospitalizada, inconsciente e em estado grave. Foi a partir daí que o mundo conheceu sua história e passou a apoiá-la também.

A repercussão do ataque sofrido pela ativista mostrou ao planeta a importância de garantir às meninas o acesso à educação de qualidade em todo o mundo, especialmente em regiões onde a equidade de gênero está longe de ser uma realidade. Um relatório publicado pela ONU em 2015 denunciou ataques a escolas em pelo menos 70 países. O motivo? Impedir que meninas estudem. 

Em 2018, o caso do sequestro de mais de cem meninas em uma escola da Nigéria, por terroristas do grupo Boko Haram, foi considerado  um “desastre nacional” pelas autoridades locais. A milícia islamita mantêm uma política ativa que impede que garotas frequentem instituições de ensino. 

Aqui no Brasil, a Constituição da República de 1988 – lei fundamental e suprema – traz a educação como “…direito de todos e dever do Estado e da família”. Apesar disso, segundo um estudo feito em 2018 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de crianças e adolescentes fora da escola no país chega a ultrapassar a marca dos 2 milhões, o equivalente a 5% dos cidadãos nesta faixa etária.

Ao fazermos um recorte de gênero, o número é ainda mais alarmante: adolescentes e mulheres carregam uma taxa de evasão escolar 29 vezes maior que os homens no país – os dados fazem parte do estudo estudo “Infância, Gênero e Orçamento Público no Brasil”, levantado pelo Centro de Defesa da Criança e do Adolescente, o Cedeca do Ceará. 

O motivo para isso, em 23,3 % dos casos, se dá pelo fato de que essas mulheres não conseguem acompanhar os estudos pois são responsáveis por cuidar de alguém, ou da própria casa – o que acaba tomando tempo e energia. A porcentagem muda de acordo com as regiões do país, chegando a quase 32% no Norte, região com o maior percentual. 

O caminho para mudar essa realidade é longo e requer não apenas políticas públicas educacionais, mas uma (re)construção cultural, que lute contra a desigualdade de gêneros, machismo e violência contra mulher. 

Alguns dados animam: no Brasil, a paridade de gênero nas matrículas em praticamente todas as etapas da Educação Básica e no Ensino Superior já foi alcançada. Quando se trata da docência, 80% dos mais de 2 milhões de professores da educação básica são mulheres. O dado faz parte do Censo Escolar 2018, levantado pelo Inep. 

No Dia Mundial da Juventude de 2019, Audrey Azoulay, diretora-geral da UNESCO, fez um discurso pedindo pela inclusão de mulheres e outras minorias no processo de concepção de novas políticas educacionais. “Se não incluirmos as opiniões das mulheres e homens jovens, dos membros da comunidade LGBTQ+, dos jovens indígenas, com deficiências ou migrantes na construção de nossos sistemas educacionais, todos perderemos algo valioso: a riqueza de entender diferentes culturas e mentes, o tesouro que é aprender um com o outro”, completou Audrey. 

O fato é que demos um primeiro e importante passo para alcançar a equidade de gênero, mas resta um longo e desafiador caminho a ser trilhado. O assunto nunca esteve tão em pauta como hoje, gerando debates políticos e projetos independentes e governamentais,  focados em igualar as condições escolares para homens, mulheres e todos os subgêneros da sociedade. Falta agora colocar o lápis no papel, desenhar um futuro igualitário e, enfim, criar um mundo que tantas gerações de mulheres lutaram para alcançar.

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